O MacGuffin: Maio 2004

Segunda-feira, Maio 17, 2004

FAIRPLAY
Parabéns ao Almocreve.

(espero não me arrepender disto)
É A VIDA
Por esta altura, já li mais e melhor Borges do que este rapaz.
O FACTOR ‘NAN’
Não há critico musical que se preze que não adira, de quando em vez ou regularmente, ao famoso argumento NAN: Não acrescenta nada. A criatura x lança um novo disco, o grupo y edita o mais recente opúsculo? Fatal como o destino: há-de aparecer um sábio a esgrimir o famoso argumento NAN para desvalorizar ou denegrir a obra. Observe-se o que se passou com o mais recente disco dos Magnetic Fields, de seu nome I: à excepção de Jorge Mourinha, no Blitz, a generalidade dos críticos apoiaram-se no famoso factor NAN. A pergunta que se impõe, colocou-a Mourinha: “«Mais do mesmo»? Quando o «mesmo» é apenas alguma da melhor pop clássica feita nos EUA nos últimos 50 anos, porque é que isso há-de ser um problema?”

Mas, pelos vistos, constitui um problema. Vivemos na mais cretina das épocas, onde até o «mais do mesmo do melhor» passou a ser criticável ou descartável. A ultra-exigência, a arrogância e a ingratidão passaram a ser a pedra de toque. Reclama-se hoje pela novidadezinha, pela «evolução», por «novas atitudes» e «novas abordagens». Em suma, pela bendita «inovação». Falhada esta, está tudo estragado. Ai o fabuloso Stephen Merritt resolveu reunir um conjunto de canções que “nada acrescentam” às sessenta e nove anteriores? Merda! Os Strokes fizeram de Room On Fire um «mero» prolongamento de Is This It? Que grande chatice!

Das duas uma: ou estes gajos nada percebem de música, ou terão de começar a provar que a pesca não é, para já, a sua maior vocação. Podem começar por colocar de lado os argumentos da treta e o que não interessa nem ao menino Jesus. A malta agradece.


E SE?
Sempre gostei de Billy Bragg. Não do Billy Bragg activista político, mas do Billy Bragg músico pop. Ontem, voltei a ouvir “Talking With The Taxman About Poetry”, um dos seus melhores álbuns. Estão lá, pelo menos, duas das melhores canções pop alguma vez escritas: “Levi Stubb’s Tears” e “Ideology”.
Enquanto o ouvia, pus-me a pensar como sempre embirrei com aquele título. E se o cobrador de impostos, ou fiscal das finanças, gosta de poesia? E se, nas suas horas vagas, o fiscal consome Yeats, Whitman ou Keats? E se o dito fiscal sabe falar de poesia como Bragg nunca soube falar?

Tenho uma teoria para a escolha daquele título. Bragg foi toda a sua vida um declarado comunista e utopista. O título escolhido espelha bem a atitude da esquerda (passo a generalizar, para efeitos retóricos). Toda a presunção e todo o preconceito da esquerda, relativamente aos «outros» (aos não eleitos do clube), estão presentes naquele título. Eis o seu modus operandi: 1) por um lado, tomar o povo como uma massa uniforme e homogénea de sensibilidades, visões, objectivos e desejos, ou seja, uma massa que implora pelo patrocínio e protecção da esquerda, e que estará sempre receptiva a aceitar, abnegadamente, as soluções que alguns sábios e visionários - guardiões da boa vontade, da justiça, da seriedade e da competência – preconizam para si (isto, é claro, se cada um, de per si, estiver bom da cabeça); 2) por outro lado, ainda que paradoxalmente, encetar um trabalho de rotulagem e de etiquetagem com base em critérios supostamente infalíveis, forjados na montanha do preconceito, do estereotipo e da caricatura - precisamente a uma latitude que lhe permite “ver o filme todo”. Juntem a isto uma completa e pueril incapacidade para lidar com o imponderável, o irracional e as liberdades individuais, et voilà: eis a esquerda em todo o seu “esplendor” (leia-se “pior”). O fiscal das finanças? O empresário? O capitalista? O banqueiro? O contabilista? O broker? Coitados, que saberão eles das «coisas do espírito»? Que sensibilidade e capacidade terão para compreender Bacon, Borges, Ibsen ou “Morangos Silvestres” – coisas, aliás, como toda a gente sabe, de importância brutal para a sobrevivência e felicidade humanas? Criaturas insensíveis, egoístas, ignorantes, materialistas, ao fim ao cabo detritos da sociedade do consumo e do ímpio sistema capitalista. Enfim... the usual stuff.

“Talking With The Taxman About Poetry”? So fucking what, Mr Bragg?


BORGES
Ando a ler A Odisseia. Nos cinemas, estreou Tróia (ainda não vi). Lembrei-me do grande Borges:

A Odisseia pode ler-se de duas maneiras. Suponho que o homem (ou mulher como pensava Samuel Butler) que o escreveu sentia haver na realidade duas histórias: o regresso de Ulisses e os prodígios e perigos do mar. Se tomarmos A Odisseia no primeiro sentido, temos a ideia do regresso à pátria, a ideia de estarmos exilados, a ideia de que o nosso verdadeiro lar fica no passado ou no céu, ou num sítio qualquer, de que nunca estamos em casa. Mas claro que a navegação e o regresso tinham de ganhar interesse. Por isso foram elaborados os muito prodígios. E quando chegamos às Mil e Uma Noites, descobrimos que a versão árabe de A Odisseia, as Sete Viagens de Sindbad, o Marinheiro, não é a história de um regresso a casa mas uma história de aventuras; e creio que a lemos assim. Quando lemos A Odisseia, penso que o que sentimos é o encanto, a magia do mar; o que sentimos é o que encontramos no navegador. Por exemplo, não tem jeito para a harpa, nem para oferecer anéis, nem para deleitar uma mulher, nem para a grandeza do mundo. Pensa apenas na longa esteira de sal do mar. Portanto, temos duas histórias numa só: podemos lê-lo como regresso a casa e podemos lê-lo como um conto de aventuras – talvez o mais belo jamais escrito ou cantado.”

“Ora, no poema épico – e podemos pensar nos Evangelhos como uma espécie de épico divino – estava tudo. Mas a poesia, como disse, dividiu-se; ou melhor, por um lado, temos o poema lírico e a elegia, por outro temos uma história contada – temos o romance. Quase somos tentados a pensar o romance como degenerescência do épico, a despeito de escritores como Joseph Conrad ou Herman Melville. Porque o romance fica aquém da dignidade do poema épico.”

“Claro que hoje as pessoas inventam tantos enredos que nos cegam. Mas talvez este ataque de inventividade feneça e talvez descubramos então que esses muito enredos não passam de aparências de uns poucos padrões essenciais.”

“De certo modo, as pessoas têm fome e sede de épicos. Sinto que o épico é uma das coisas de que o homem precisa. Entre todos os lugares (isto pode surgir como uma espécie de anticlímax, mas é um facto), Hollywood tem sido aquele que fornece épicos ao mundo. Em todo o globo, quando as pessoas vêem um Western – que contemple a mitologia de um cavaleiro, mais o deserto, a justiça, o xerife, os tiros, etc. – penso que tiram dele o sentimento do épico, saibam-no ou não. Afinal, saber não é importante.
Ora, não quero fazer profecias, porque essas coisas são perigosas (embora, com o tempo, possam tornar-se verdadeiras), mas acho que, se se pudesse de novo juntar contar um conto e cantar um poema, poderia acontecer algo de muito importante. Talvez isso venha da América . uma vez que, como todos sabem, a América tem o sentido ético de uma coisa ser certa ou errada. Pode ser sentido noutros países, mas não me parece que se encontre sob formas tão óbvias como o encontro aqui. Se isso se realizasse, se pudéssemos voltar ao épico, então ter-se-ia conseguido algo de muito grande.”

“Pensem nos principais romances do nosso tempo… no Ulisses de Joyce, digamos. Dizem-nos milhares de coisas sobre os dois personagens, no entanto, não os conhecemos. Temos um conhecimento melhor dos personagens de Dante ou Shakespeare, que nos chegam – que vivem e morrem – numas quantas frases. Não conhecemos milhares de circunstâncias relativas a eles, mas conhecemo-los intimamente. Isso, como é óbvio, é muitíssimo mais importante.
Penso que o romance está a acabar. Penso que todas essas experiências muito ousadas e interessantes como o romance – por exemplo, a ideia de deslocar o tempo, a ideia de a história ser contada por diferentes personagens – tudo isso está a levar ao momento em que sentiremos que o romance já não está entre nós.
Mas um conto, uma história têm algo que permanecerá. Não me parece que alguma vez os homens se cansem de contar e ouvir histórias. E se, a par do prazer do prazer de nos contarem uma história obtivermos o prazer adicional da dignidade do poema, algo de grande terá acontecido. Talvez eu seja antiquado, um homem do século XIX, mas sinto-me optimista, tenho esperança; e como o futuro encerra muitas coisas – como o futuro, espero, encerra todas as coisas – acho que o épico há-de regressar. Acredito que o poeta voltará a ser um fazedor, ou seja, contará uma história e também a cantará. E não pensaremos estas duas coisas como diferentes, tal como não as consideramos diferentes em Homero ou Virgílio.”


in Contar o Conto (uma das seis palestras na Harvard University)



Sábado, Maio 15, 2004

AFORISMO
"Os socialistas são contra o lucro. Os capitalistas são apenas contra os prejuízos".

Millôr Fernandes

Quinta-feira, Maio 13, 2004

A INDIFERENÇA DÓI
É verdade, querida Batukada: já ninguém me liga. Obrigado pela mezinha. Já comprei os limões, na mercearia do Sr. Custódio. O mel é da Serra de Portel, um valor seguro. A água, do Luso, tão natural como a minha sede. Vou agora preparar o elixir. Ainda a tempo de acompanhar o terceiro e último Zithromax. Beijos.
ANIVERSÁRIO
Celebraram o primeiro aniversário. Muitos parabéns. No Quinto dos Impérios!
JEFF, IF YOU COULD ONLY SEE YOURSELF? (revisto e corrigido)
Jeff: What's the matter? Lisa: Sitting around looking out of the window to kill time is one thing but doing it the way you are with binoculars and, and wild opinions about every little thing you see is, is diseased!

Há coisa de três semanas, este biltre teve o atrevimento de tocar no assunto, com a perguntinha da praxe: “De todos os filmes de Hitchcock, qual é para ti o melhor?”. A questão é assaz ofensiva, só desculpável porque Borges é Borges, o resto é paisagem. Disse-lhe que teria, pelo menos, de escolher três ou quatro filmes. Arrisquei uma resposta: ”Certamente Janela Indiscreta, Vertigo e Mentira. E, já agora, A Corda, Difamação e Intriga Internacional. E, claro, Marnie, Um Barco de Nove Destinos, Ladrão de Casaca...” Parei por ali. Já deveria saber que não é humanamente possível escolher «o» filme de Hitchcock. Qualquer tentativa nesse sentido resulta num exercício penoso e num esforço inglório.

Imobilizado que estou em casa, por ordem do médico, vai para três dias, lembrei-me de um outro imobilizado. Um tal de L. B. Jefferies. Fatalmente, revi ontem o filme (é seguramente o mais visto e revisto filme da minha vida). Hoje, fazendo jus ao meu nickname, decidi postar umas breves notas sobre Rear Window.



Janela Indiscreta (título feliz para um país que se habitou à infelicidade de se inventarem os títulos mais improváveis para os filmes made abroad) foi realizado em 1954, no mesmo ano de Chamada Para a Morte. Eis a ficha técnica:

Realização: Alfred Hitchcock
Produtora: Paramount, USA
Argumento: John Michael Hayes, baseado numa novela de Cornell Woolrich
Fotografia: Robert Burks
Interpretes: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr, Judith Evelyn, Ross Bagdasarian, Georgine Darse, Jesslyn Fax, Rand Harper, Irene Winston, entre outros.

O filme conta-nos a história de L. B. Jefferies (James Stewart), um fotografo que se encontra «preso» num quarto de um apartamento nova-iorquino, de perna engessada, resultado de um acidente de trabalho (Jefferies fazia a cobertura de uma corrida de automóveis quando um carro se despistou na sua direcção - momento, aliás, registado pela sua objectiva). Nessa sua condição de inválido, Jefferies recebe a visita diária de duas personagens: Stella (a fabulosa Thelma Ritter), enfermeira da seguradora que assegura a massagem rotineira e a injecção diária de «common sense» (os diálogos são irresistíveis); Lisa Carol Fremont (Grace Kelly), a improvável namorada de Jefferies e futura noiva, menina da alta sociedade nova-iorquina, colaboradora da Harper’s Bazaar, muito ciosa com a sua imagem e postura, sempre a par do último gadget da Tiffany & Co. ou o mais recente grito da moda, directamente de Paris para a sua Park Avenue. Lisa está longe de ser a típica fashion victim, patetinha e frívola. Na realidade, Lisa é uma mulher encantadora, sofisticada, senhora de um excelente sentido de humor, que sonha, um dia, casar com Jefferies. Apesar de nitidamente apaixonado (quem não ficaria?) Jefferies mantém algumas reservas relativamente ao casamento, face à notória diferença de estilos de vida. Jefferies é o típico fotografo aventureiro, sempre em busca do furo jornalístico, da fotografia impossível, seja ela tirada em Long Island, Calcutá ou Caxemira. Lisa é o oposto. Um dos temas abordados em Janela Indiscreta é, precisamente, a questão do compromisso vs. incompatibilidades.

Jefferies encontra-se numa situação que é um convite ao tédio, não colmatado pelas esporádicas visitas da enfermeira Stella e da encantadora Miss Lisa. Agarra-se ao único foco de distracção disponível naquele cubículo: o cenário exterior de um pátio traseiro, proporcionado por uma abertura na parede vulgarmente conhecida como "janela". A janela. Por via de uma quase «inevitabilidade», Jefferies acaba por vestir o fato de peeping-tom, entregando-se a um exercício de voyeurismo que, de inicio, tem mais de lúdico do que de patológico. A janela de Jefferies passa a ser, também, a nossa janela, a janela (física e metafórica) do espectador, como voyeur de segunda-mão.

Pode sempre dizer-se que Janela Indiscreta é um filme sobre o voyeurismo. Mas de que tipo? Jefferies é, sem margem para dúvidas, um voyeur, mas um voyeur de circunstância, gozando da atenuante de se encontrar imobilizado e confinado a um espaço exíguo, rodeado por quatro paredes e, lá está, uma janela. O seu voyeurismo não advém de uma obsessão doentia (de índole sexual ou não), mas resulta «apenas» do «natural» índice de curiosidade sobre o alheio, intrínseco a qualquer ser humano. No caso de Jefferies, pode até dizer-se que se trata de defeito profissional (a profissão de fotógrafo obriga-o a ser curioso e observador). “Eu aposto consigo que nove em cada dez pessoas que vejam uma mulher a despir-se a caminho da cama, ou até mesmo um homem arrumando o seu quarto, vão ficar especadas a observar; ninguém dirá, desviando o olhar, 'aquilo não me diz respeito'. Poderiam descer as cortinas mas raramente o fazem; ficam parados, observando”, afirmou Hitchcock em entrevista a Truffaut. A eventual crítica de Hitchcock ao voyeurismo é, desta forma, mitigada pelo constatar e pela aceitação tácita dessa fraqueza humana. Essa ambiguidade é transposta magistralmente para o final do filme: Jefferies, o voyeur, é coroado herói embora, momentos antes, tivesse sido «castigado» pelo seu atrevimento e pela sua indiscrição (partindo outra perna e quase acabando morto).



Janela Indiscreta é um dos filmes onde Hitchcock deu mais largas ao seu sadismo e ao seu exquisite humor negro. Um filme pincelado por uma crueldade que o fazem ir muito para além de qualquer visão pessimista da natureza humana. Em jeito de parábola, podemos dizer que o cenário revelado pela janela representa o mundo, e Jefferies o realizador de cinema que, com a sua objectiva (binóculos), nos dá a conhecer o grotesco, o patético, a impossibilidade da felicidade, as pífias misérias humanas. Nós, que juntamente com Jefferies observamos o quotidiano daquele pátio, damo-nos conta de que nos observamos a nós próprios. Miss Torso: a boazona bailarina, rodeada pela homenzarrada que só pensa em saltar-lhe para cima, mas incapaz de a compreender e amar; Miss Lonely Heart: a triste, solitária e amargurada solteirona, cujo desespero a leva a compor jantares à luz das velas com homens imaginários, culminando numa tentativa de suicídio; o compositor falhado, insatisfeito com a sua provável mediocridade e lutando contra a solidão, apesar de conseguir encher o apartamento de gente; o casal sem filhos que, em contrapartida, tem um adorável cãozinho semi-amestrado (que, por sinal, acaba morto); o caixeiro-viajante, homem de poucas falas, antipático, casado com uma mulher impertinente que se encontra acamada e lhe corrói a paciência; o jovem casal recém-casado, para quem a vida ainda é tudo, passando os seus dias a... brincar. É neste cenário, com estas personagens, que Hitchcock mistura, como só ele o sabe fazer, casamento, suicídio, degradação humana e desespero, juntando-lhe o cinismo e a ironia hitchcockiana, mas sem nunca perder de vista uma espécie de solidão moral. Truffaut disse um dia que “a impassividade e ‘objectividade’ em Hitchcock são mais aparentes que reais”. Por detrás da trama e de um tom que mistura realismo, poesia e humor macabro, persiste uma visão do mundo que caminha na direcção da misantropia.Janela Indiscreta deixa também no ar a ideia de que, no remanso e na paz do mais comum dos lares, povoado pela ordinary people mais inofensiva, podem esconder-se os piores crimes.



Do ponto de vista cinematográfico, Janela Indiscreta é riquíssimo. Começa com um magistral e histórico travelling onde, em pouco mais de dois minutos, sem uma palavra ou diálogo, se fica a saber quase tudo sobre todas as personagens. Por outro lado, Janela Indiscreta é um dos raros filmes em que o que é mostrado está quase exclusivamente ligado à observação directa de um dos personagens, como se o filme estivesse contido dentro de outro. Alfred Hitchcock disse uma vez uma coisa sobre Rear Window que resume na perfeição o filme: “Temos um homem imobilizado que olha para fora de casa. É uma parte do filme. A segunda parte revela-nos o que é que ele observa. A terceira parte dá-nos a conhecer a sua reacção. Isto é a mais pura expressão da ideia cinematográfica”. Em nome dessa «pureza», cerca de 60 minutos de Janela Indiscreta (uma hora) são mudos ou semi-mudos. Hitchcock fragmentou o filme, apostou na simetria de planos, numa rigorosa mise-en-scene, voltou a usar, como já o tinha feito em A Corda, o método do «cenário único», deteve-se nos pormenores mais bizarros e recusou os habituais clichés cinematográficos, mesmo que isso colidisse com o solilóquio da representação. Não foi por acaso que Stewart confessou, após ter visionado pela primeira vez o filme, não se lembrar de ter representado «daquela maneira». Em Janela Indiscreta, Hitchcock conseguiu separar a linguagem estrutural do cinema com a da expressão teatral. Com isso compôs um verdadeiro hino ao cinema.



Stella: The New York State sentence for a Peeping Tom is six months in the workehouse. Jefferies: Oh, hello Stella. Stella: You know, in the old days they used to put your eyes out with a redhot poker. Any of those bikini bombshells you’re always watchin’ worth a redhot poker? Oh dear, we’ve become a race of Peeping Toms. What people ought to do is get outside their own house and look in for a change. Yes, sir, how’s that for a bit of homespun philosophy?Jefferies: ’Reader’s Digest’, April 1939. Stella: Well, I only quote from the best. You know, I should have been a gipsy fortune teller instead of an insurance-company nurse. I got a nose for trouble. Smell it ten miles away. You heard of that stock market crash in 29? I predicted it. Jefferies: Just how’d you do that Stella? Stella: Oh, simple. I was nursing a director of General Motors. Kidney ailment, they said. Nerves, I said. Then I asked myself: what’s General Motors got to be nervous about? Overproduction, I said. Collapse. When General Motors has to go to the bathroom 10 times a day, the whole country’s ready to let go. Jefferies: You know Stella, in economics, a kidney ailment has no relationship to the stock market. None whatsoever. Stella: It crashed, didn’t it? Stella: I can smell trouble right here in this apartment. First you smash your leg, then you get to lookin’ out the window – see things you shouldn’t see. Trouble. I can see you in court now, surrounded by a bunch of lawyers in double-breasted suits. You’re pleading. You say: ‘Judge, it was only a bit of innocent fun. I love my neighbours like a father.’ And the judge says: ‘Well, congratulations. You’ve just given birth to three years in Dannenora.’ Jefferies: Yeah, well, right now, I’d even welcome trouble, you know? Stella: You’ve got an hormone deficiency. Jefferies: I can you tell from a thermometer? Stella: Those bathing beauties you’ve been watching haven’t raised your temperature one degree in a month. Are you never going to get married? Jefferies: Oh, I’ll probably get married, one of these days, but when I do, it’s gonna be to someone who thinks of life not just as… just as a new dress and a lobster dinner and the latest scandal. I need a woman who’s willing to – hold it – willing to go anywhere and do anything and love it. Jefferies: So the honest thing for me tod do is just call the whole thing off… Let her find somebody else… Stella: Yeah, I can hear you now. Get out of my life, you perfectly wonderful woman! You’re too good for me. Stella: Look Mr. Jefferies. I’m not an educated woman, but I can tell you one thing: When a man and a woman see each other and like each other, they oughta come together – wham – like a coupla of taxis on Broadway and not sit around analysing each other like to specimens in a bottle.


A ORIGEM DE TODOS OS MALES
ou Quais ADM's Qual Carapuça!
Num livrinho de ficção dirigido a crianças, intitulado "O Menino Que Não Gostava de Ler", Susanna Tamaro conta-nos a história de Leopoldo, um rapaz que tinha aversão aos livros e à leitura. A páginas tantas, lê-se:

"No ano anterior, a mãe, preocupada com os seus péssimos resultados escolares, tinha-o inclusivamente levado a um psicólogo. O psicólogo tinha-lhe feito imensas perguntas, tinha-o feito brincar com uns cubinhos de plásticos e depois, no fim, tinha dito:
- Papirofobia, mais um caso de papirofobia.
- Papirofobia?! - tinha repetido a mãe, alarmada, e aí o psicólogo tinha-lhe explicado que se tratava de um problema recentíssimo e em rápida expansão: os primeiros casos tinham sido registados nos Estados Unidos dez anos antes e, de lá, como uma epidemia invisível, tinha invadido todo o mundo civilizado."


É bom que as criancinhas aprendam: daquele país só vem desgraça. Perguntem ao Dr. Soares que ele explica.

Quarta-feira, Maio 12, 2004

AFINAL...
Já houve um desmentido, por parte de Pedro Amorim. Tudo indica que se tratou de uma inocente calinada de uma qualquer estagiária do Expresso. Que é, como se sabe, a referência.
EU NÃO LI ISTO, POIS NÃO?
Descobri esta pérola, via Grande Loja do Queijo Limiano:

Autoridade quer acabar «blogs»
A Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM) pretende acabar com a existência dos chamados «blogs», páginas de opinião muito em voga na Internet, alegando que estes sítios são frequentemente utilizados para difamação, afirmou ao EXPRESSO Online Pedro Amorim, especialista em direito para as novas tecnologias da informação.
O jurista falava à saída do seminário «Ciberlaw'2004», organizado pelo Centro Atlântico, que decorreu na terça-feira no Centro Cultural de Belém.
«Os blogs estão cada vez mais a ter uma relação com o jornalismo, e prevê-se uma grande tendência para a difamação. O objectivo da ANACOM é acabar com a criação de "blogs" e espero que seja cumprido», disse Pedro Amorim.

Meus caros leitores: por culpa de uma amigdalite e do meu estado febril, digam-me, por favor, que tudo não passa de uma ilusão derivada dos efeitos secundários do meu delirium tremens.

Terça-feira, Maio 11, 2004

SERVE
Desde que tenha cama e roupa lavada. Não sou esquisito.
COISA LINDA
Esse novo vestido. Melhor só mesmo o wallpaper. O tal.

PS: por acaso, é muito parecido com o novo fato deste senhor.

PPS: Xiii, só agora reparei na quantidade de novos fatos e fatos e...

E AINDA TE QUEIXAS…
Este pobre rapaz lamenta o facto da doce Inês o ter relegado para a categoria de “Outros Links”. O que direi eu, relegado que fui para a categoria de “Link? Népias”.
UM INTELECTUAL ANTI-LIBERAL?
Este senhor tem por hábito apelidar-me de várias coisas: “guarda-portão liberal” (o último), “neófito da economia política”, “liberal eborense”, “contabilista”, etc. etc. É o mesmo senhor que cultiva uma bravata de recorte académico, regada por tiques próprios de um amanuense manga-de-alpaca, no espaço que se convencionou ser de “serviço público”. Muito bem. Palmas. Bis. O pior surge quando, de tempos a tempos, o senhor em questão resolve, num gesto de magnanimidade, género “aprendam que eu explico”, descer desse etéreo pedestal para investir em terrenos espúrios. Ou seja: para se imiscuir na discussão política dos ignaros. Vai daí, resolve, através da ironia e de uma pseudo-equidistância ideológica, colocar a nu as vulgaridades e vanidades que esse bando de papalvos liberais por aí apregoam, pondo-os ao mesmo tempo na ordem. Por azar, ou talvez não, esse senhor nem sequer repara que o faz usando e abusando da pesporrência, da presunção e de um paternalismo bacoco (repare-se nas boas-vindas dirigidas a Vasco Rato). Nem sequer se dá conta que a sua tentativa para disfarçar e florear a generosa quantidade de insultos distribuídos pelos “bushistas”, “sharonistas” e, sei lá, “fascistas” (?) (o senhor adora slogans e pela-se por um bom estereótipo), é levada a cabo pelo uso de uma linguagem verborrágica – ou seja, nula de ideias ou contra-argumentos. Aliás: ideias e contra-argumentos parecem não lhe interessar. Fleumática e enfadadamente, acrescentaria eu.
No meio dos seus recados e do role de epítetos por ele tecidos como se de uma filigrana aracnídea se tratasse, ficam no ar algumas dúvidas. Por exemplo: será ele um anti-liberal? Será marxista? O que entenderá ele por liberalismo? O que saberá ele de Berlin? Terá lido uma linha de Locke, Montesquieu, Mill ou Tocqueville? A avaliar pela sua condição e vocação de bibliotecário, só pode.

Segunda-feira, Maio 10, 2004

OS CANALHAS
1. Hediondos. Execráveis. Injustificáveis. Inqualificáveis. Estes são apenas quatro dos epítetos que melhor se adequam aos actos de tortura e humilhação de que foram alvo alguns prisioneiros iraquianos, por parte de alguns elementos das tropas da coligação, em Abu Ghraib - justamente um dos locais de tortura e execução tradicionais de Saddam Hussein. Da administração Bush espera-se, agora, duas coisas: 1) que leve esses soldados à justiça para que sejam punidos exemplarmente; 2) que apure responsabilidades criminais e morais.

Os incidentes foram graves, mas pouco ou nada há a acrescentar ao que já foi dito. Pode dizer-se, como atenuante, que, em guerra, há sempre lugar a abusos e a comportamentos desviantes por parte dos que actuam no terreno. Pode. É verdade. Seja como for, estes actos têm de ser condenados clara e inequivocamente, sem rodriguinhos ou contextualizações.

Duas notas finais. A primeira: Rumsfeld deverá demitir-se? Pelas hesitações no pedido de desculpas e pela forma como terá, supostamente, escondido durante meses esta situação, a sua demissão pode exigir-se. A segunda: lamentar que os que agora condenam de forma tão veemente a administração Bush, aproveitando para generalizar o comportamento de uns quantos pela totalidade das forças no terreno, tenham sido tão frouxos e afónicos a condenar, no passado, a barbárie que Saddam perpetrou contra o seu povo. Critérios...

2. Mário Soares aproveitou a situação para dizer que “o exército norte-americano” (ou seja: todo) está a ser pior do que de pior teve o soviético, estando envolvido em actos deliberados de tortura e humilhação dos iraquianos. Uma afirmação canalha pela injustiça e demagogia que encerra. Como escreveu José Bourbon Ribeiro, as atrocidades de cinco ou seis energúmenos, mesmo que fardados, não se podem confundir com o profissionalismo de milhares de soldados. Mário Soares deveria sabê-lo e deveria recusar a demagogia das extrapolações e das generalizações. Deveria ter memória e lembrar-se que alguns elementos do exército português fizeram o mesmo em África e que seria errado e impróprio olhar para esses actos como um paradigma. Nada, aliás, que surpreenda. A obsessão anti-americana de Soares e a sua viragem à esquerda mais extrema abriram a porta à pusilanimidade e à estupidez.

Sexta-feira, Maio 07, 2004

PARABÉNS!!!!!


Quinta-feira, Maio 06, 2004

DIA ESPECIAL
Hoje a minha filhota faz 8 anos. Perdoem-me se não escrevo. A vida é feita de prioridades.


Quarta-feira, Maio 05, 2004

(CO)MISSÃO IMPOSSÍVEL


DIÁLOGOS FALHADOS

“Num momento em que tanto diálogo (até que enfim!) se trava, não será pessimismo encetar diálogos… falhados? A conhecida conversa de surdos:
- Vais à pesca?
- Não. Vou à pesca.
- Ah, pensava que ias à pesca…”

Alexandre O’Neill in Flama 31 Maio 1974


- Os americanos pretendem passar o poder para os iraquianos.
- Ai sim?
- Sim, o processo de transição da soberania está já em marcha.
- E as ADM? Não as encontraram, pois não?
-…

- Existem sérios receios sobre os programas nucleares iraniano e norte-coreano.
- Eh pá, e quem anda a controlar os de Israel e dos EUA?
-…

- Segundo uma sondagem, cerca de 65% dos iraquianos inquiridos entende que as forças da coligação devem ficar até que um governo iraquiano tome posse.
- E as ADM? Não as encontraram, pois não?
-…

- Parece que um grupo de soldados das tropas da coligação torturou e maltratou alguns prisioneiros iraquianos.
- Bush, Saddam, Bin Laden: são todos iguais.
-…

- Foram dezenas de milhares os corpos encontrados em valas comuns, no Iraque.
- E as ADM? Não as encontraram, pois não?
-…

(continua)

Segunda-feira, Maio 03, 2004

SING ME SOMETHING NEW
Olha...não é que o Pedro Mexia decidiu interromper as suas emissões por duas semanas?
E...
...o meu «Sporteng» (como diria Sousa Cintra) lá se deixou vencer pelo clube da 2.ª circular. Como diria o Eduardo Prado Coelho, quem não faz por marcar arrisca-se a sofrer.

Domingo, Maio 02, 2004

BÉÉÉ (COMO A OVELHA)
ou A Minha Vez De Bater No Bloco
Não há paciência para o moralismo e para a arrogância de Francisco Louçã. Dizem coisas de Paulo Portas, mas Louçã é, na sua altivez e proverbial presunção, muito pior. O estilo e a atitude de Louçã representam, aliás, o cânone do seu partido: a pregação de um moralismo hipócrita, aliado à demagogia mais primária.

Ao contrário do que se pretende vender, o Bloco de Esquerda é um partido extremamente intolerante, maniqueísta e reaccionário, que se auto-segrega deliberadamente por força da sua soberba. A sua metodologia é a do franco-atirador: disparos avulsos sobre alvos em movimento, mas sem estratégia ou visão global abrangente. Ideias formadas e consolidadas sobre o que fazer com a Economia, a Educação, a Saúde ou a Justiça? Não se lhes conhecesse uma. Todos nós sabemos quais são as posições do Bloco sobre a droga, o aborto, os imigrantes, o racismo, mas sobre os temas mais prementes e que mais directamente têm que ver com o dia-a-dia do comum dos mortais, parece repousar um manto que emudece todo e qualquer dirigente bloquista (o que confirma a suspeita: o Bloco é um partido de e para «franjas»). Por exemplo: o que é que os bloquistas pensam da iniciativa privada e das empresas? Como torná-las mais competitivas? O que pensam do problema da produtividade? Como «atacar» os mercados externos? Que mecanismos deve o Estado disponibilizar? Deve o Estado disponibilizar alguma coisa às empresas? Que experiência ou conhecimento tem Louçã, Portas, Rosas ou Fazenda do que significa gerir uma empresa ou um conjunto de pessoas? Que solução preconizam para acabar com as listas de espera nos hospitais? Que medidas se podem tomar para tornar os hospitais mais eficientes sem se hipotecar a qualidade dos serviços prestados? Como tornar a justiça mais célere? Qual é a sua política para o ensino básico? Nada. Absolutamente nada. São temas que não fazem parte da «agenda» - a bendita e já famosa «agenda» do Bloco de Esquerda.

Depois, qualquer aproximação a temas mais genéricos é levada a cabo pela já famosa cassete: contra o sistema capitalista, contra a globalização, contra o modelo liberal, contra o imperialismo, contra o «neo-colonialismo», marchar, marchar, marchar! Como o próprio nome deixa antever, o "Bloco" é sempre contra muita coisa. Não é de estranhar: por detrás dos slogans berrados, do olhar arrogante e maniqueísta dirigido aos «outros» e da irresponsabilidade das suas propostas (ainda há tempos propunham a nacionalização da Bombardier), esconde-se a certeza de que jamais chegarão ao poder – facto que os deixa livres para dizer o que é sempre fácil dizer, soterrando algumas ideias interessantes por um oceano de inconsciência pueril.

A constante insinuação da sua «pureza e altruísmo», de quem luta pelos «pobres e desfavorecidos» e pelas «minorias» - ao contrário, por exemplo, da direita dos «interesses» - chega a ser obscena. Mas o que é verdadeiramente obsceno é a forma como os bloquistas em geral, e os seus dirigentes em particular, se tentam apropriar dos bons costumes, das boas intenções e dos sentimentos mais nobres, fazendo-os seus. A patente da seriedade e da bondade parece ter sido adquirida, algures no tempo, pelo Bloco. O resto – a malícia, a má-fé, o egoísmo, o desamor ao próximo, o materialismo, a intolerância, o xenofobismo e por aí fora – pertence irremediavelmente aos «outros», ou, como lhes chamava o Dr. Rosas, aos “engomadinhos e pomposos nesse estilo de compromisso entre o vendedor de Alfa Romeos e o estagiário pretensioso de firma chique de advogados, com o seu convencionalismo postiço”. No fundo, é disto de que o Bloco se alimenta: do estereótipo e do preconceito, enrolados em clichés velhos e slogans baratos, que saem da sua palavrosa boca a uma velocidade estonteante. O respeito, o benefício da dúvida, a tolerância, o saber ouvir e, eventualmente, o saber pensar, fazem parte de um pais longínquo para quem se julga acima da ralé e de qualquer suspeita.

Curioso é que, no seio de tanta clarividência e de tanto génio, ainda ninguém dentro do partido reparou que, com o passar do tempo, o discurso e os sound bytes do Bloco de Esquerda estão a tornar-se numa espécie de ladainha surda, inconsequente e extremamente previsível.
DICA DO ANO
ou Deixem O “Brik” E Passem Para O “Prisma Aseptic With Stream Cap"!
Observa-se o recipiente em forma de paralelepípedo rectângulo, normalmente pela manhã, quando as little grey cells, ainda atordoadas, procuram acomodar-se à sua função diária (para alguns), que é, como se sabe, a de permitir pensar. Pegamos no dito e constatamos a existência de duas enigmáticas orelhas, produto das pregas formadas pela dobra do acabamento superior desse invólucro de cartolina maleável que dá pelo nome de Tetra Brik, internamente revestido por uma película plastificada e asséptica, que está em contacto directo com o liquido - a que, no presente caso, se lhe atribuiu o nome de leite (embora de leite possa ter pouco). Numa das orelhas encontra-se a inscrição “Abertura Fácil”, revelação que fará sorrir os mais incautos e imberbes, perante a perspectiva de poder encetar o recipiente de forma simples, rápida e cómoda. Os mais batidos nestas andanças sabem que não é bem assim. Sabem que “Abertura Fácil” é sinónimo de “não querias mais nada, não?” Tanto uns (os caçulas), como outros (os experientes) notam que, junto a essa idílica mensagem, avista-se uma espécie de micropicotado por onde, suposta e logicamente, se iriam separar milhares de moléculas, dando lugar a uma abertura, vulgo buraco. A diferença é que os mais experientes sabem duas coisas que os outros não sabem: 1.ª) as moléculas, nessa particular tirinha micropicotada, amotinaram-se, encontrando-se agarradinhas que nem lapas; 2.ª) o esforço que advém do ponto em que a fibra nervosa portadora da mensagem “rasgar pelo picotado”, encontra a fibra muscular, dando origem às carga eléctricas que desencadearão a acção muscular dos deltóides, trícepes, grande palmar, extensores e interdigitais, é proporcional à quantidade de leite que irá bolsar da boca que se pretende abrir, com particular prejuízo para as fibras naturais e/ou sintéticas que formam a roupa que, àquelas horas da manhã, ousamos envergar. Daí que, os mais experientes, dêem a volta ao texto, utilizando, para o efeito, o serviço de uma tesoura, sabendo que com isso poderão, também, abrir um buraco dez vezes menor (mas mais do que suficiente) que o contorno do micropicotado fazia adivinhar. Ultrapassado esse primeiro embate, segue-se o passo seguinte: verter o liquido no copo. Já que, até esse momento, tudo correu de forma fácil, eficiente e segura, a Tetra Pak (casa do Tetra Brik) reserva-nos um pequeno teste aos nossos reflexos e à nossa capacidade de concentração: controlar o fluxo de saída do liquido, nos vários momentos do ciclo. Os que já passaram por isso, estão agora familiarizados com um movimento que veio a ficar conhecido, internacionalmente, como “o passo tetra”: um movimento brusco para trás, da anca e dos braços, despoletado pela percepção dos primeiros salpicos, provenientes da fase em que o descontrolo do fluxo passou a ser total - consubstanciado por uma série de regurgitamentos caóticos. Convém, por isso, avançar com aquela que, até ver, é a dica do ano: com a mesma tesoura, abram, na orelha oposta, um buraco de iguais dimensões. Ou seja, pela vossa saúde: furem as duas orelhas ao Pak.



PERGUNTA DO ANO (VIA LIBERDADE DE EXPRESSÃO*)
Quem financia o Bloco de Esquerda?

*um dos melhores blogues nacionais a seguir atenta e militantemente

Sexta-feira, Abril 30, 2004

DO LUSCO-FUSCO
O Alberto faz o elogio do Gato Fedorento, escrevendo: "o Gato Fedorento não é só o melhor programa português de humor desde o "Zip-Zip" e o "Tal Canal", o Gate Fedorente, como lhe chama o general Eanes, é o melhor programa português de humor e ponto." Eu diria mais: o Gato Fedorento não é só o melhor programa português de humor desde o "Zip-Zip" e o "Tal Canal", o Gato Fedorento é o melhor programa português de humor e ponto. E tenho pena de quem não tem TV-a-cabo.
AVISO
Este biltre acusa-me, de forma insidiosa e injusta, de nunca ter lido Borges. Mentira! Aparte esse atrevimento, costuma vangloriar-se de ter lido “a obra toda” de Borges. Por acaso, e aqui vai o míssil, é o mesmo biltre que não conhecia o poema sobre Israel…(que aqui transcrevi, emocionado).

Não fosse a avultada soma que me entregou, há coisa de um ano, para eu o lincar, estaria agora a ser removido da listinha de eleitos. Ainda assim, fica o aviso: mais uma dessas e calço-te uns patins.

PS: é o mesmo biltre que, só agora, numa provecta idade, decidiu desbravar a filmografia de Hitchcock (ainda há dias me confessava que ia ver, pela primeira, o "Mentira"). E que nunca leu Berlin. Um escândalo, é o que é!

Quinta-feira, Abril 29, 2004

BORGES, JORGE LUIS

A Israel
Quem me dirá se estás neste perdido
Labirinto de rios seculares
Do meu sangue, Israel? Ou os lugares
Que os nossos sangues têm percorrido?
Tanto faz. Sei que moras no sagrado
Livro que abarca o tempo e que essa história
Do rubro Adão redime e na memória
E agonia do Crucificado.
Estás nesse livro, que é sempre o reflexo
De cada rosto que sobre ele se inclina
E do rosto de Deus, que num complexo
E árduo cristal terrível se adivinha.
Salve, Israel, que guardas a muralha,
A de Deus, na paixão dessa batalha.

in Elogio da Sombra (1969)


+1 BB
Mais um bom blogue: Largo do Rato. Entretanto, o seu autor, o Luis, teve a amabilidade de me escrever, a propósito do ensaio de Vasco Pulido Valente:

"Caro Carlos,

Sou fã de VPV, e mesmo quando não concordo com ele leio com prazer e avidamente (tal a falta de "pensadores" na imprensa portuguesa) os seus artigos. Apesar de comprar normalmente o "Público", veio-me parar á mão no dia 25 um exemplar do DN. Achei o artigo magnífico e tirei-o da net.
Contrariamente á tua opinião, a qual eu poderia subscrever, dei-me conta em conversa com um "velho" militante socialista que a admiração por essa prosa do VPV era mútua (nomeadamente ele destacava, justamente, o papel de Mário Soares).

Acredito que artigo possa ter causado algum mau estar, mas principalmente na esquerda que saiu derrotada no 25 de Novembro de 1975, já que a análise se bem que polêmica em algumas apreciações pessoais, é atentatória da iconografia criada por essa mesma esquerda e que afinal é a causa da sua celebração da data todos os anos.

Aliás eu prevejo que essas correntes políticas transformem cada vez mais a celebração da data em manifestações anti-globalização com todos os temas recorrentes (abaixo EUA, contra poluição, pelo aborto livre, pelos casamentos homossexuais, a favor das causas palestinianas e árabes, abaixo Israel, abaixo os governos europeus, pela liberalização das drogas, contra a fome e a miséria no mundo motivadas principalmente pelos EUA e as multinacionais, contra a caça das espécies em perigo, etc)."


O GIN TÓNICO TONIFICA
Se um gin tónico tonifica, um gin tónico em casa de um argentino-de-gema-supersimpático-com-o-wallpaper-mais-bonito-do-universo tonifica duplamente. Cheers, Carlos.


UMA CRÍTICA ACERTADA : ESCLARECIMENTOS
Se estou de acordo com a condecoração de Isabel do Carmo? Não. Se a ordem é a da “Liberdade” e pretende condecorar quem lutou por ela, convinha distinguir, para a dignificar e não banalizar, quem lutou, como lutou e de que lado lutou. Isabel do Carmo lutou, na altura, do lado errado e com os métodos errados. Lutou ao lado de um grupelho (PRP/Brigadas Revolucionárias) que ousou utilizar o terrorismo como «método de trabalho». Não creio que a sua condecoração faça sentido ao lado de quem lutou por essa mesma liberdade respeitando a vida humana, a ordem e as linhas mestras do ideário democrático (coisas desconhecidas dos partidários e operacionais do PRP).

Por outro lado, não creio que Paulo Portas seja um «saudosista» do antigo regime. Quem o conhece sabe que Paulo Portas foi sempre um amante da liberdade, contrário a qualquer tipo de totalitarismo. Pensar isso de Paulo Portas revela má-fé.

Dito isto, parece-me excessiva a demarcação, marcada pela ausência, do Ministro da Defesa e do Estado. Em política não basta ser: é preciso parecer. Paulo Portas não é um mero político ou um mero deputado. É Ministro da Defesa e do Estado, e é o presidente de um dos partidos que, em coligação, governam este país. Iriam estar presentes nas condecorações personalidades cujo percurso político e pessoal, ao longo destes trinta anos, mereceriam a consideração do ministro. “Uma andorinha não faz a Primavera” parece-me ser o aforismo a evocar. A presença de Isabel do Carmo não deveria ofuscar os restantes agraciados. Nesse sentido, as ausências de dirigentes e ministros do PP nas cerimónias presididas por Sampaio, revelaram falta de savoir faire e falta de solidariedade para com o seu parceiro de coligação. E, espremido o assunto, chegamos à conclusão que o gesto despoletou mais uma polémica desnecessária.

Quanto à “pastilha elástica”, parece-me de um mau gosto a toda a prova. Nem merece mais comentários.

Quarta-feira, Abril 28, 2004

UMA CRÍTICA ACERTADA
Por Teresa de Sousa:

"(...) Temos um Governo cujo primeiro-ministro, sejam quais forem as apreciações sobre as suas políticas, soube interpretar a maturidade que a democracia portuguesa já atingiu, 30 anos depois da revolução, e agir em conformidade. Num espírito aberto, de reconciliação e de estímulo.
Isso não admira. Por mais defeitos que tenha, o chefe do Governo e do PSD também tem a democracia na massa do sangue, inscrita no seu código genético. Durão Barroso viveu a revolução, como tantos outros da sua geração, como um jovem de extrema-esquerda, radical, sonhador, excessivo. Esta é uma experiência que marca para toda a vida quem a teve. Como dizia Willy Brandt, nada melhor do que o radicalismo na juventude para se ser um bom social-democrata na maturidade.
Barroso, neste aspecto particular que é importante, não desiludiu. Ao convidar para São Bento todos os seus antecessores desde o 25 de Abril, o primeiro-ministro mostrou a grandeza de uma democracia reconciliada, madura e verdadeiramente livre, porque todos, sem qualquer excepção, têm nela lugar. Foi um belo gesto cheio de simbolismo.

Há, no entanto, outro governo em Portugal, ressabiado ou oportunista, reaccionário ou apenas tonto, não sei, que manchou deliberadamente a imagem que o primeiro-ministro quis dar às comemorações. E este é um governo que nos envergonha.
No dia 25 de Abril, o ministro de Estado e da Defesa resolveu participar nas comemorações oficiais na Assembleia da República e na Avenida da Liberdade evidenciando ostensivamente a sua distância e o seu desprezo pelo 25 de Abril. Não há outra explicação - a não ser a pura má educação - para que, no Palácio de São Bento, exibindo uma mastigação ostensiva de pastilha elástica, tenha resolvido "despachar" trabalho em plena cerimónia. Ou para, perante as câmaras da televisão, continuar a mascar furiosamente a sua pastilha elástica quando, na Avenida da Liberdade, decorria a parada militar.
Também não foi por acaso que o ministro da Defesa escolheu os ex-combatentes para celebrar o seu 25 de Abril. Já tínhamos ouvido o que pensa sobre a descolonização, obrigando de resto Barroso a demarcar-se dele. Tem sempre a boca cheia de "pátria" e de "nação" e de "bandeira". Ainda declina mal a palavra democracia.

Se restassem dúvidas sobre as intenções de Portas, logo na manhã de segunda-feira elas foram totalmente esclarecidas. Bastou ligar a rádio.
O PP resolveu não comparecer nas cerimónias de imposição da Ordem da Liberdade a várias personalidades nacionais, para protestar contra o facto de Isabel do Carmo fazer parte dos agraciados.
Na véspera à noite, no programa da SIC-Noticias "Outras Conversas" de Maria João Avillez, tínhamos assistido a uma civilizada e muito interessante conversa entre Isabel do Carmo, antiga militante de um partido de extrema-esquerda, Ana Maria Caetano, filha do último presidente do Conselho do anterior regime, e António Costa Pinto, historiador e Comissário das comemorações dos 30 anos, ele próprio, como Barroso ou tanta gente ilustre, ex-militante da extrema-esquerda maoísta.
A filha de Marcello Caetano defendeu o pai, até com alguns argumentos interessantes, mesmo que deles se possa discordar radicalmente. Isabel do Carmo explicou que continua a sonhar com uma sociedade diferente, igualitária - a sua utopia da "ilha de sítio nenhum" -, apesar de ter aprendido que a democracia, enquanto liberdade de cada um para fazer o que quer, pensar o que quer, dizer o que quer, é uma coisa óptima e um ponto de partida fundamental para tudo o resto.
De alguma maneira, o programa reflectiu a maturidade que a sociedade portuguesa atingiu trinta anos depois. A liberdade total de pensamento - sem o mais leve laivo de receio - e o confronto civilizado de ideias.
Estavam, todos satisfeitos e bem dispostos, os antigos primeiros-ministros que Barroso convidou para o Palácio de São Bento. Mesmo aqueles que podiam hoje sentir-se mais ressabiados e mais desiludidos com o rumo que a revolução tomou. Disseram o que pensavam aos microfones dos jornalistas presentes. Incluindo sobre este governo. Com a tranquilidade correspondente ao próprio facto de terem aceite o convite.
À escolha dos cidadãos que receberam a Ordem da Liberdade presidiu, como é óbvio, o mesmo espírito de reconciliação e de abertura. Só Portas não percebeu.

Felizmente, o país também está a uma enorme distância de Portas. Em primeiro lugar, na sua compreensão e na sua adesão à democracia liberal.
Há mais de 10 anos, não me lembro exactamente a data, uma sondagem sobre a relação dos portugueses com o 25 de Abril e com os valores essenciais da democracia deixou-me com um nó no estômago. Nessa sondagem, uma maioria de portugueses ainda valorizava mais a segurança e o bem-estar económico do que a liberdade.
Hoje, como demonstra a sondagem do PÚBLICO/ Universidade Católica, os portugueses revêem-se naquilo que é a essência da democracia liberal: a liberdade individual e a possibilidade de escolher e afastar governos através do voto. Não há melhor exemplo da maturidade da democracia portuguesa."

BRINDO A ISTO (1)
No Público:

"A maioria PSD/CDS-PP na Câmara do Porto 'chumbou' ontem uma proposta dos vereadores socialistas de abrir as portas dos paços do concelho ao FC Porto para festejar a vigésima vitória na Superliga.
Os 'dragões' vêem-se assim impedidos novamente de celebrar a vitória na varanda principal da sede do município, onde normalmente eram ovacionados por muitos milhares de adeptos e simpatizantes 'azuis e brancos' que enchiam a Avenida dos Aliados e a Praça da Liberdade.
A proposta socialista, rejeitada pelos seis vereadores da maioria PSD/ /CDS-PP (incluindo o presidente, Rui Rio) e com a abstenção do autarca da CDU Rui Sá, propunha que a autarquia, enquanto "legítima representante de todos os portuenses", "abrisse os Paços do Concelho aos atletas, treinadores e dirigentes [do FC Porto] em dia a combinar".
"A Câmara não entra na guerra das varandas", disse ao CM o chefe de Gabinete da Presidência, Manuel Teixeira. "A Câmara está disponível para uma recepção ao FC Porto nos moldes que organiza para chefes de Estado, mas não aceita noitadas, acenos nas varandas, nem folclore. Como o FC Porto não aceita este modelo, nem fazemos o convite para não reacender guerras antigas. Ceder seria ir ao tapete e desdizer tudo o que Rui Rio afirmou no passado sobre promiscuidade entre futebol e política autárquica", acrescentou Manuel Teixeira."
CÂMARA-DE-ECO
Via Aviz:

«"Não foi para isto que fizemos o 25 de Abril!" "Isto" pode ser tudo. A evasão fiscal, os carros dos ricos, as filas de espera nos hospitais, a pobreza, as propinas universitárias, os incêndios das florestas ou os imigrantes clandestinos. Acontece que foi exactamente para "isto" que se fez o 25 de Abril. Fez-se o 25 de Abril para poder pensar, falar e amar em liberdade. Para escolher quem nos representa. E para derrubar quem nos governa mal. Nesse sentido, Abril está cumprido. Apesar dos que, depois de terem falhado durante cinquenta anos o derrube da ditadura, tentaram confiscar o movimento libertário. E não obstante haver quem queira "aprofundar Abril" ou "cumpri-lo integralmente". Deus nos livre!...
É verdade que muitos dos que o fizeram, e todos nós hoje, temos outras ambições. Queremos uma justiça decente e uma saúde eficiente. Boas escolas e melhor segurança social. Mais cultura e mais produtividade. Uma direita liberal e uma esquerda inteligente. Mais igualdade social, mais oportunidades e um lugar mais destacado ao mérito. Menos compadrio, menos corrupção, menos complacência. E mais brio para um país que o tem pouco. Quero, queremos muito disso. É possível que alguns militares de Abril e não poucos civis do mesmo mês e dos seguintes o quisessem também na altura. Mas o 25 de Abril não se fez para isso. Fez-se para isto. Para ter êxito e para falhar. Para ouvir disparates e rasgos de inteligência. […]
E se é verdade que a maior parte dos jovens não sabe o que foi o 25 de Abril, o que choca não é isso, mas sim a confrangedora falta de cultura. Também não sabem o que foi o 28 de Maio, nem o 5 de Outubro. Não sabem quem foi Oliveira Martins ou Guilhermina Suggia. Não sabem quem foram nem o que fizeram Fontes Pereira de Melo, Guerra Junqueiro ou Egas Moniz. Como não sabem o que é o genoma, nem quem foi Galileu. Curiosamente, os pais também não.»

António Barreto, in Público
A “REVOLUÇÃO”
O ensaio de Vasco Pulido Valente sobre o 25 de Abril (Diário de Notícias, 25/04/2004), é uma peça de antologia a que ninguém deve ficar indiferente. É óbvio que a esquerda detestará o texto, porque a esquerda é incapaz de suportar qualquer forma de desmistificação da revolução que possa advir de uma análise fria e distanciada (no sentido emocional) dos acontecimentos, assim como é incapaz de separar o eventual simbolismo do 25 de Abril (a ideia da «democracia» e da «liberdade», que ninguém no seu perfeito juízo negará) do que realmente aconteceu. Nem sequer se trata de criticar o 25 de Abril. O que Vasco Pulido Valente faz é colocar o 25 de Abril no devido lugar da história, chamando os «bois pelos nomes» e explicando, com total desassombro, as incoerências, contradições e limitações do pronunciamento militar.

Trinta anos depos, há gente que continua embevecida e encantada com os «capitães de Abril» e com meia-dúzia de heróis sinistros que, uma vez por ano, costumam sair da toca, ainda que de semblante carregado por acharem que o 25 de Abril “ainda está por cumprir” (o «seu» 25 de Abril estará ainda por cumprir e, felizmente, nunca se cumprirá). Não é de admirar: para além do já habitual apego à tralha ideológica e revolucionária por parte da esquerda mais radical, há anos que a história do 25 de Abril vem sendo mais ou menos romanceada, com base em generalizações («capitães de Abril»: quais e com que objectivos?), fazendo crer que a «revolução dos cravos» foi um momento lírico, mais ou menos pacífico, corolário da boa vontade e do altruísmo de forças «progressistas» e «libertadoras», constituídas por caridosas e desinteressadas almas, carregadas de boa vontade e empenhadas, desde a primeira hora, em repor a justiça, libertar o bom do povo e instituir uma democracia à imagem do modelo europeu.

O que aconteceu no 25 de Abril foi mais o produto do acaso, da complacência e da irresponsabilidade de uns (típico neste país), em contraponto com a coragem e a sagacidade de outros (Mário Soares e Sá Carneiro, por exemplo). Foram estes "outros" que contrariaram, de forma corajosa, caminhos entretanto delineados pelos intelectuais e os «ideólogos» de serviço – os tais que pululavam nas hostes do PC, do MFA e de meia dúzia de grupelhos «doutrinários», onde, supostamente, se saberia qual o caminho a seguir - pelo menos o caminho indicado na cartilha «socialista» e «progressista», a impor por decreto ou à força (via saneamentos e não só).

Eis um excerto do artigo/ensaio de Vasco Pulido Valente:

Uma revolução?
”O «25 de Abril» foi uma revolução? Não foi. O pronunciamento militar liquidou o antigo regime e dali em diante tudo o resto sucedeu com a protecção e com frequência o incitamento do MFA ou parte dele. Os «revolucionários» (do PS ou de qualquer grupúsculo) agiram sempre em liberdade e completa segurança, pessoal e colectiva. Em '74 e '75 nunca tiveram de enfrentar uma oposição séria e, quando encontraram a mais leve resistência (um fenómeno raro) o Exército resolveu o problema. A sua acção não passou em geral de um exercício de pura prepotência. Nenhum morreu, nenhum esteve na cadeia (durante o PREC, claro), nenhum perdeu o seu emprego. Não por acaso os mais fanáticos continuam a falar da «festa de Abril». Só que não há revoluções sob o alto patrocínio do poder político.

Mas, tirando isto, e não é tirar pouco, transformou a «revolução», como alguns pretendem, a sociedade portuguesa? Não transformou. Não se muda uma sociedade com ocupações seja do que for ou «saneamentos» seja de quem for. Um dos grandes mitos da Esquerda radical a ocupação (de terra ou de uma empresa) é um exercício absurdo que se derrota a si próprio (eliminando o patrão, o capital e o crédito leva fatalmente à falência e ao desemprego). Quanto aos «saneamentos», para durarem, exigem a instauração e consolidação de um novo regime e que esse regime exclua sistematicamente a elite da véspera (uma coisa impossível que nem Estaline tentou). Não admira que em cinco anos restasse vestígio de qualquer ocupação e que os «saneados» voltassem tranquilamente aos seus lugares, quando não ao governo. A agitação «revolucionária» produziu ruído e conseguiu incomodar muito gente. De importante e de permanente não trouxe nada.

Falta falar da «reforma agrária» e das nacionalizações. Se não existem, como não existiam movimentos de massa que as reclamem e defendam, cedo ou tarde, quem a título de «reforma agrária» se apropria de terra alheia, devolve a terra; e as nacionalizações são invertidas por privatizações (tanto mais que, no caso da indústria e da banca, o pessoal dirigente trabalhou para o «socialismo» como trabalhara e depressa tornaria a trabalhar para o capitalismo). Até o PC que observou que a «reforma agrária» e as nacionalizações não eram por si a revolução. De facto. Foram, isso sim, a ruína da economia portuguesa e presumo que irritaram muito, sem consequência de maior, algumas famílias. Como resultado, não se recomenda.

Ainda se diz que Portugal deve agradecer a sua presente «liberdade» aos «capitães de Abril». Não se vê por que razão. A liberdade nunca ocupou o primeiro lugar no seu «pensamento» ou na sua política. E, se hoje há um regime democrático, o responsável é Mário Soares, que precisamente o impôs contra a vontade dos militares. A verdadeira revolução foi a dele.”

PS: é curioso (para não dizer triste) comparar o Mário Soares descrito no ensaio de Vasco Pulido Valente, com o Mário Soares de agora, de braço dado com Carvalhas e com a extrema-esquerda, criticando o governo de Durão Barroso através da insinuação mendaz de que se trata de um governo de extrema-direita e exercitando o mais primário anti-americanismo. Chega a meter dó.

Terça-feira, Abril 27, 2004

AS AVENTURAS DE RICARDINHO
A minha filha anda a ler um livro intitulado “Para Onde Foi o Zezinho?”, da autoria de Nicholas Allan. Conta a história de um espermatozóide que vivia dentro do senhor Nuno, com mais 300 milhões de companheiros. O Zezinho não era lá muito bom a fazer contas, mas era óptimo a nadar. O dia da Grande Competição de Natação aproximava-se e, apesar de exímio nessa arte, Zezinho nunca deixou de a praticar todos os dias. Ele sabia que teria de nadar muito rápido para ganhar o prémio: um lindo óvulo redondinho. No final da corrida, aconteceria algo de maravilhoso, algo simplesmente mágico: a fecundação.

Ricardo de Araújo Pereira escreveu um pequeno texto sobre o 25 de Abril, que foi publicado no Barnabé. Escreveu o Ricardo:

“Nasci no dia 28 de Abril de 1974, três dias depois da Revolução (ou, como se diz agora, para não aborrecer ninguém, da Evolução) dos Cravos. Por isso, a minha experiência do 25 de Abril é exactamente igual à da generalidade das pessoas de direita que viveram naquela época: não mexi uma palha para que a Revolução se desse, não a desejei e não estava minimamente convencido de que fosse necessária.”

Antevejo, desde já, um sucesso estonteante para a história que neste pequeno mas genial texto se vê esboçada: “As aventuras de Ricardinho: o primeiro espermatozóide que, ainda nas bolsas do escroto e, mais tarde, já depois da fecundação, na barriga da mãe, se aventurou no mundo das sondagens. Ricardinho, o espermatozóide, cedo revelou apetência para a matemática, sendo, simultaneamente, um óptimo nadador. ‘Distribuição binominal, de Poisson ou polinomial’, ‘análise combinatória’, ‘distribuição amostral das proporções’, ‘distribuições amostrais de diferenças, somas e médias’, ‘intervalos de confiança’ – tudo era canja para o Ricardinho. Influenciado pelo Prof. Bonaventura, um velho e sábio espermatozóide (péssimo nadador), Ricardinho enveredou pela investigação social, trabalhando naquela que foi a sua primeira e mais famosa tese: A Insustentável Estupidez e Boçalidade dos Homens e das Mulheres de Direita (repare-se como Ricardinho, o espermatozóide, estava avançado para a época, fazendo já uma leitura perfeita do politicamente correcto ao mencionar os dois géneros). Após aturado estudo, com a ajuda de um sofisticado dispositivo intra-testicular e intra-uterino que lhe permitia sondar os que lá fora, no outro mundo, se movimentavam, Ricardinho, o espermatozóide, cedo confirmou uma curva de tendência que lhe permitiu chegar a três conclusões: 1) as pessoas de direita não desejavam acabar com o ancien régime; 2) não mexiam uma palha para que uma mudança revolucionária eclodisse; 3) achavam que a vidinha lhes corria bem e, como tal, não era preciso mudar nada. Tudo confirmado até ao seu nascimento, uma vez que Ricardinho, durante mais de dois anos, entrou dentro da cabeça desses papalvos (metaforicamente), razão pela qual a ficha técnica da sua mega-sondagem registou um desvio padrão próximo dos 0,000001%.

Ricardo de Araújo Pereira faz amanhã (quarta-feira) 30 anos. Os meus parabéns ao Ricardo: um ser humano de eleição (desculpa arruinar-te a reputação, Ricardo) e um dos melhores humoristas portugueses.

O Saddam, por coincidência, também faz anos amanhã. A esse, repescando a b-word, digo-lhe: bardamerda.
DA LIBERDADE
"If all mankind minus one were of one opinion, mankind would be no more justified in silencing that one person than he, if he had the power, would be justified in silencing mankind. Were an opinion a personal possession of no value except to the owner, if to be obstructed in the enjoyment of it were simply a private injury, it would make some difference whether the injury was inflicted only on a few persons or on many. But the peculiar evil of silencing the expression of an opinion is that it is robbing the human race, posterity as well as the existing generation – those who dissent from the opinion, still more than those who hold it. If the opinion is right, they are deprived of the opportunity of exchanging error for truth; if wrong, they lose, what is almost as great a benefit, the clearer perception and the livelier impression of truth produced by its collision with error.”

John Stuart Mill, in “On Liberty” (1859), cap. 2 On the Liberty of Thought and Discussion, Penguin Classics, 1985


EXPRESSÕES E PALAVRAS A ABANDONAR
1. Relativamente à pergunta “Quem fala?”, quando incluída numa conversação telefónica, é bom fazer uma ressalva. A resposta a essa pergunta depende, obviamente, de um pormenor: se a pessoa que a formulou se identificou previamente (e o "quem fala?" é já um prenúncio do contrário). Caso contrário, a resposta correcta à pergunta “Quem fala?” não é, de certeza, “sou o Carlos” ou “é o Carlos”. É, tão simplesmente: “Quem fala e com quem deseja falar, se faz favor?”. Não há nada mais irritante do que receber um telefonema sem que a pessoa do outro lado tenha o bom senso e a boa educação de se identificar previamente. De resto, entre o “Sou o Carlos” e o “É o Carlos” prefiro, de longe, esta última. Correcta ou incorrectamente (já agora, estimo as melhoras da Manuela Moura Guedes).

2. Não gosto muito de “encarnado”. Nem de "vermelho". Mas quer-me parecer que “vermelho” é mais correcto.

3. E porque não falar do clássico "tenho um amigo meu"? (pleonasmo a que recorro, infelizmente, de vez em quando...)

4. E, como é: "de vez em quando" ou "de quando em vez"?

(e, agora, se me permitem, vou levar a filhota à natação)

Segunda-feira, Abril 26, 2004

RÁPIDO
Make it quick, Sara, make it quick.
CÂMARA-DE-ECO
The Hague's Perverted "Justice"
por Steven Vincent
"On March 31, the International Court of Justice (ICJ), located in The Hague, ruled in favor of suit brought by the Mexican government against the United States regarding Mexican nationals currently sitting on death row. If, like most Americans, you consider court rulings from The Hague about as relevant as the Eurovision song contest, consider the cases of two men, the first an American citizen, the second a Mexican.

In 1992, a Mexican judge sentence Chicago-born Alfonso Martin del Campo Dodd to 50 years in prison for the murder of his sister and her husband, despite the fact that the sole evidence linking him to the crime was his confession which a Mexican policeman admitted torturing him into signing. Dodd appealed his conviction, but four subsequent judges ruled that confessions extracted under torture are admissible as evidence. Perhaps an innocent man, the 39 year-old will spend the rest of his life in a Mexican jail.

In 2000, a Texas jury sentence Angel Maturino Resendiz to death for the 1998 rape and murder of a Houston physician. Resendiz, better known as the infamous "Railway Killer." rode the railways of America where he murdered at least nine people - often sexually abusing their dead or dying bodies - before turning himself into authorities in 1999. Many law enforcement officials believe that Resendiz may have killed nearly 200 others - making him the worst serial killer in North American history. He currently sits in a Texas penitentiary awaiting execution.

Given that Mexico is a country whose judicial system allows the torture of suspects and routinely considers a person accused of a crime guilty until proven otherwise, it is ironic - some would say outrageous - that the Vicente Fox government recently sought the annulment of Resendiz's conviction, along with that of 50 other Mexican nationals slated for execution in Texas and eight other U.S. states. More outrageous yet, Mexico nearly got the ICJ to agree with them.
In January, 2003, our southern neighbor instituted legal proceedings in the ICJ charging that the United States had violated the provisions of the 1963 Vienna Accord on Consular Relations, which, in part, requires arresting officials to notify foreign citizens that they have a right to contact their consulate. Specifically, the Fox government contended that had they known of the arrest of the 52 Mexican nationals (later reduced to 51), government officials might have gone to the defendants' trials and - so the implication went - perhaps prevented their conviction or at least their death sentences. Furthermore, Mexico argued, because the United States had failed in a timely fashion to issue the appropriate information, any statements the Mexicans made should not be admissible as evidence and their convictions voided.

On March 31, the ICJ ruled that the United States had indeed violated the Vienna Accord, but stopped short of overturning the Mexicans' convictions, ordering instead that American courts "review and reconsider" their cases. The Court also reiterated an earlier ruling that, pending this "review," Texas must delay the execution of two men, Cesar Fierro and Roberto Ramos, and Oklahoma halt the execution of one inmate, Osvaldo Torres Aguilera. More importantly, because the ICJ did not limit its ruling to the Mexican cases, or even to capital crimes, it essentially left a way for thousands of foreign inmates held in American prisons to reopen their convictions.

This is the third time in six years that the ICJ, which has no power to enforce its rulings, has reprimanded the United States for failing to observe the Vienna Accord, which Congress ratified in 1969. In 1998, Paraguay asked the court to stay the execution of one of its citizens, and the following year, Germany petitioned The Hague to prevent two brothers from receiving capital punishment. Both attempts failed.
Unless a Unites States federal court steps in, this latest ruling may experience a similar fate. "The ICJ has no standing with us," says Robert Black, a spokesman for Texas Governor Rick Perry. According to Black, because the Fierro and Ramos cases are still under appeal, there is no scheduled execution date. Not so with Torres Aguilera, notes Charlie Price, spokesman for Oklahoma Attorney General W.A. Drew Edmondson. He comments that, "Despite the ruling from the ICJ, Aguilera's execution by lethal injection will take place on May 18." This has particularly upset Mexican officials who take great pride in the fact that their country has not executed a civilian criminal since 1937.

Critics of the ICJ's ruling claim it is an unwarranted intrusion into the judicial sovereignty of the United States, and warn that the international body is gradually becoming a "court of appeals" that seeks to supercede the United States Supreme Court. Going further, law professors Eric Posner and John Woo wrote an April 7 op-ed article in the Wall Street Journal accusing the court of becoming a "forum for attacking the U.S. and its allies." Over the last 20 years, they note, the ICJ has heard challenges to American policy from Nicaragua, Libya, Serbia and Iran. The court, they contend, "has rendered itself irrelevant to international relations."

Those opposed to the United States' position argue, in part, that because the Mexicans lacked sufficient knowledge of English and/or the American court system, their trials were inherently unfair - an argument that American officials vehemently contest. "They received all the protections of the U.S. Constitution," argues Jerry Strickland, spokesman for Texas Attorney General Greg Abbot. Moreover, a check of the backgrounds of many of the death row felons shows they were anything but confused aliens who drifted into the country, only to become ensnared by the law.
For example, Resendiz, who spoke fluent English, had crossed in and out of the United States a dozen times beginning in 1979, while his criminal record even before his string of murders included brushes with the law in eight states. Jose Medellin, who in 1993 kidnapped, raped and strangled a 16-year-old girl, had lived in the United States since he was six "and spoke good English," says Harris County, Texas, Assistant District Attorney Roe Wilson. She adds that the same holds true for Edgar Tamayo, who in 1994 shot a Houston policeman in the back of the head. As for Torres Aguilera in 1993, the then-18-year-old used a Tec-9 (a 9mm semi-automatic pistol) to shoot an Oklahoma City couple in their bed with their children watching - it has been noted by spokesman Charlie Price that Aguilera arrived in the United States in 1975, when he was five years old.

Still, as heinous as the crimes may be, the Constitution states that treaties "made under the authority of the United States, shall be the supreme law of the land; and the judges in every state shall be bound thereby."Moreover, some legal experts maintain that should the United States refuse to reconsider these death penalty cases, it will violate at least three international treaties, including the United Nations Charter. At a time when America is desperately looking for allies in the world, they question if can it afford not to accede to the ICJ's demands. Minneapolis attorney Sandra Babcock, who pioneered the use of the Vienna Accords to defend her clients, even suggests that police should read foreign detainees the treaty along with their Miranda Rights.

Meanwhile, in another ironic twist to the controversy, citizens in the central state of Mexico, considered a bellwether for Mexican politics, went to the polls in February, 2003 to vote on a non-binding referendum regarding capital punishment. Despite Mexico's long-standing opposition to executing felons, more than 85 percent of the voters felt that the state should apply the death penalty to prevent soaring crime rates. Appalled by his constituents' demands, President Fox immediately condemned the results and reaffirmed his opposition to capital punishment. "Democratic countries (that uphold the) dignity of people," he claimed, "don't believe in the death penalty." Apparently, Fox's notion of dignity does not extend to suspects tortured into making confessions and then railroaded through the Mexican court system.

ICJ - take note.”


in FrontPageMagazine.com | April 26, 2004

PELA MANHÃ, A LUZ
Do leitor António “Nestum Com Mel”:

”Caro MacGuffin:

Achei muito bem a transcrição da crónica do dr. Vasco Pulido Valente no seu blogue, sem nenhum comentário adicional porque o que é perfeito não se comenta: estampa-se e pronto. Sem mais. Gostei sobretudo do pormenor da fotografia do santo no fim, como uma singela homenagem do seu fiel seguidor. Aliás, gosto de visitar o contra-a-corrente com a mesma curiosidade de quem bate palminhas numa sala enorme e vazia para lhe perceber a reverbação: o MacGuffin lê os blogues predilectos com uma atenção que eu invejo -- desde pequeno que tenho falhas de concentração -- e depois regozija, dá cambalhotas, salta os sofás, calculo que abrace os vizinhos de lágrima pendente do canto do olho e então escreve sobre o que leu, carimba a genialidade da coisa, deixa o link. Depois escreve também e, enquanto escreve, imagina os acenos afirmativos das cabecinhas inteligentes e adoradas dos seus leitores bloguistas preferidos. Se alguma vez decidir mudar de nome ao blogue, câmara-de-eco não é mau (não, não, ora essa, fique com os direitos da autoria do nome).

Para terminar, aconselhá-lo-ia a consultar o seu ortopedista: é que, pelo que deduzo, as lentes grossas que usa para filtrar e converter a realidade e não ser ferido com cores que não quer que façam parte do espectro, devem ser muito pesadas; somando a elas o peso das certezas todas que já carrega -- tenha calma, caro MacGuffin, é ainda muito novo, abarque uma certeza de cada vez --, receio que a sua estrutura óssea, daqui a cinquenta anos, lhe torne as mudanças de estação particularmente dolorosas.

António.


Comentário:
Há pessoas que nos despem mentalmente. Há pessoas cuja sagacidade e poder de análise «do outro» permitem tornar transparentes anos e anos de opacidade e de evasivas mais ou menos disfarçadas. Quanto a isso, nunca tive ilusões. Sabia que, mais dia, menos dia, um desses sábios iria cruzar o meu caminho e dizer: “chegou a tua vez”. Esse momento e essa pessoa chegaram, numa bela manhã de Primavera. Mesmo à distância, caro António, você percebeu tudo. O que diz muito de si e da sua capacidade de julgar os outros. Agora que li a sua missiva, devo confessar-lhe que me sinto aliviado. Se calhar de forma inadvertida, o amigo António abriu-me uma janela: a que me permite desabafar aquilo que tentei esconder, dos outros e de mim próprio, durante anos. Já que me dá essa oportunidade, permita-me, então, que confesse tudo.

Sim, é verdade: não passa uma semana sem que a minha filha, de sete anos, admoeste o comportamento infantil que me leva a fazer as mais patética figuras. A reprimenda coincide, quase sempre, com as sextas-feiras e o fim-de-semana. A razão é simples: às sextas sai o Independente; sextas, sábados e domingos tenho o Vasco Pulido Valente; sábado o João Pereira Coutinho e a Helena Matos; domingo o António Barreto. A oferta é farta e conduz ao delírio. Muita cambalhota e muito salto tenho eu dado à conta destes cronistas, que há anos tento seguir e imitar (no estilo e no conteúdo). O espectáculo é de tal forma estapafúrdio, e, em boa verdade, patético, que chega para aborrecer uma criança. Repare: uma criança, ou seja, uma criatura que está habituada ao burlesco, a palhaçadas, cambalhotas e pinotes. Para a minha filha, tornei-me numa espécie de palhaço cabotino – sem piada, previsível e maçador. “Pai, lá estás tu outra vez!”. Uma vergonha, caro António, uma vergonha!

E a coisa tem dado chatices. No ano passado, por exemplo, num voo entre um dos sofás da sala e a chaise longue, a meio de um parágrafo da autoria de Maria Filomena Mónica, fui aterrar com o maxilar inferior na mesa da sala. Resultado: seis pontos no queixo e uma cicatriz para toda a vida. A mente é de tal forma doentia que, de cada vez que a observo (à cicatriz), penso para comigo: são estas as marcas de que um homem se deve orgulhar! A vizinhança, coitada, essa foge de mim como o diabo da cruz. Eu finjo que não os oiço, mas raras são a vezes em que não me chegam aos ouvidos os ecos de um esclarecedor “aí vem o chato do 2.º esquerdo!”. Mas o pior mesmo é a forma como me tornei dependente da minha própria vaidade: o facto de pensar que, ainda que ocasionalmente, algum desses geniais articulistas possa ler as minhas elecubrações, dá-me ensejo e enche-me o ego de forma pornográfica. Esse é, aliás, o meu jackpot onírico: o de um dia saber que fui reconhecido e apreciado por quem venero e sigo canideamente. Por enquanto, contento-me com os milhares de fãs que fui angariando nesta câmara-de-eco (bem posto, o nome).

Tenho consciência do meu problema. Mas tenho uma esperança: a de, com a idade, chegar ao patamar que agora acolhe o caro António, e que me vai permitir concluir, como um dia escreveu Vasco Pulido Valente (está a ver? Não consigo resistir!): tão absurdo que eu era em 2004.

Caramba, António: você topou-me!

Sábado, Abril 24, 2004

APESAR DE
A Sara aconselha-me a abandonar a palavra “posta”. Não vejo porquê. No Aurélio:

posta S. f. 1. Pedaço de peixe. 2. Pedaço, talhada. 3. Fam. Emprego rendoso. 4. Bras.Pessoa moleirona. Posta de sangue. Porção de sangue coalhado. Arrotar postas de pescada. Fam. Jactar-se, vangloriar-se, arrotar. [Do it. posta] S. f. Posto de parada outrora situado nas estradas, de espaço a espaço, onde se efectuava a muda dos cavalos das diligências e outros veículos, ou do serviço do correio. 2. O correio e (ou) sua administração.

Como vê, querida, faz todo o sentido. Eu, pelo menos, passo a vida a arrotar postas de pescada neste blogue.
O PAÍS

Corrupção
por Vasco Pulido Valente
"Com a detenção de Valentim Loureiro voltou a ladainha: «O futebol é um mundo à parte.» Ah, sim? E à parte de quê? À parte da política, da administração, dos negócios, do espectáculo, da saúde, da própria justiça? Com certeza que há em Portugal maravilhosos «mundos», em que a lei impera e que são regidos por uma meticulosa honestidade. Ninguém os conhece, ninguém, por acaso ou fugazmente, passou por eles, mas que existem esses paraísos, refulgindo com modéstia em regiões perdidas da nossa consciência e da nossa vida, lá isso existem. Têm de existir. Não se está mesmo a ver? Francisco Sarsfield Cabral, reflectindo anteontem sobre o caso, chegou surpreendentemente a uma tese pessimista: não se está a ver. A corrupção já se tornou, segundo ele, um «dado normal». Como os que julgam o futebol «à parte», não quero desiludir o bom Francisco. Infelizmente, não me lembro de um único regime, desde o fim do século XVIII, em que a corrupção, essa terrível novidade de hoje, não fosse também um «dado normal». Era um «dado normal» na Monarquia Absoluta, no Liberalismo, na República e na Ditadura. As tabernas da Ribeira, o Marrare do Polimento, o Grémio Literário, os cafés do Rossio e os discretos retiros do Estado Novo estiveram sempre cheios de patriotas com angústia: «Tudo podre, tudo podre!», diziam eles. «Francamente não sei onde isto vai parar.» «Isto» foi andando e foi parar aqui, a 2004, com o futebol «à parte» e o resto exactamente como o futebol. Um país pequeno, íntimo e pobre, com um Estado omnipotente e uma burocracia tropical, segrega corrupção. Se calhar, não funcionava sem corrupção: já alguém pensou nisso? Concordo que nos falta uma grande dose de ética protestante (não católica, por amor de Deus); e polícia e um sistema judicial decente. De qualquer maneira, não acredito que as coisas melhorassem."

in Diário de Notícias


Sexta-feira, Abril 23, 2004

ALBERTO
Genial! (com g e sem r)
FRIENDLY MAIL
De Ivo Veiga:

”Caro Carlos

O post sobre a Virginia Astley empurrou-me para este e-mail. Visito, frequentemente, o "Contra" com grande prazer. Mas devo reconhecer que as suas referências musicais são um verdadeiro suplício. Como estive mais de uma década afastado da audição de música pop (ok, concedo que o termo é demasiado ambíguo), entregando-me às delicias do jazz e da música clássica, a minha memória resolveu vingar-se e atormentar-me com lembranças desse género musical. O actual revival dos anos 80 acentua o terror. Trata-se, obviamente, de má consciência. Afinal vendi todos (muitos...) os meus vinis e cassetes adquiridos entre 82 ("Movement" dos New Order) e 88 ("Daydream Nation"). Estranhará este desabafo, já que não me conhece. Mas o Carlos, ao fazer, por diversas vezes, esses exercícios de memória musical, tem contribuído para que a minha própria memória se torne mais insidiosa e insistente. Por isso, por favor, pare. Ou então passarei e enviar-lhe as despesas da Amazon. Só esta semana vieram: "Seven Songs" 23 Skidoo; "Sulk" Associates; "To each" A Certain Ratio; "Desire" Tuxedomoon ( estes dois últimos nas recentes reedições)

Um abraço

Ivo Veiga

PS: Concordo consigo: o "LC" é um grande, grande disco.(…)”


Meu caro Ivo: se eu fosse mauzinho, punha-me agora a lembrá-lo do The Queen Is Dead, do Surfer Rosa, do Closer, do Violent Femmes, do Liberty Bell And The Black Diamond Express, do Born Sandy Devotional, do Forever Breathes The Lonely Word, do Rattlesnakes, do Crazy Rythms, do Hats, do Loveless, do Bad Moon Rising ou do If I Die I Die. Mas não o vou fazer. Não quero, de forma alguma, apoquentá-lo.
ANDAR A PEDI-LAS
O JMF não gostou da Bíblia, perdão, do livro Impasses. Quem diria?! Apesar de atordoado com tamanha surpresa, reparo que, en passant, JMF atira-me com um muito bem disfarçado “bardamerda”, que eu, humildemente, aceito. Tenho andado a pedi-las.

Quinta-feira, Abril 22, 2004

ESCUTO
From Gardens Where We Feel Secure, da senhora Virginia Astley. Decorria o ano de 1983. O ano de "This Charming Man" dos The Smiths, "Treeless Plain" dos Triffids, "Live At The Venue" dos Durutti Column e "Cattle & Cane" dos Go-Betweens. Old times...

SE NÃO OS PODES VENCER, JUNTA-TE A ELES
A minha contribuição para a lista de vocábulos e expressões a erradicar sumariamente (por ordem crescente de intolerância):

5. “Olá, tudo bom?

4. “- Tem aqui o café”, “- Obrigadinho

3. “Efectivamente

2. “Isso não tem nada a ver

E, os vencedores (ex aequo):

1. “Adeus. Fica bem” e "Eles hádem votar"
TODO O CUIDADO É POUCO
Agora que foi constituída uma autêntica brigada dos bons costumes, aplicada à escrita, todo o cuidado é pouco na hora de escrever um simples vocábulo. Há mais de um dia que ando para escrever qualquer coisita minimamente interessante (coisa difícil, hoje em dia) mas hesito perante a perspectiva de seis olhinhos (2 + 2 + 2) a dissecar, letra a letra, qual espada de Dâmocles, os textos deste iletrado que, do Alentejo profundo, vos escreve (lá está: “perspectiva” e “dissecar”...). O estilo é, verdade seja dita, bem melhor que o dos marretas do "Disse...?", no extinto Acontece. Ainda assim, não sei o que faça. Estou seriamente (“seriamente” também não está bem, pois não?) a pensar desistir do blogue, para me dedicar à pesca. Sim, que o Alentejo também tem mar. Seja como for, arrisco o salto, não sem antes rezar para que as críticas não sejam severas. Prometo ser breve.

Há três dias que o habitáculo do meu carro faz as delicias do cinéfilo que há dentro de mim. Escuto, em declarado arrebatamento de sentidos, as composições de Herrmann para os filmes de Hitchy, nomeadamente a saber: The Man Who New Too Much, The Trouble With Harry, Vertigo, North By Northwest, Psycho e Marnie. Eis a pergunta: tirando a wonder-team Michael Powell/Emeric Pressburger, alguém consegue encontrar, na história do cinema, uma associação de cabeças mais profícua ("profícua"?) e genial que a de Hitchcock, John Michael Hayes (ou Lehman) e Herrmann?


Terça-feira, Abril 20, 2004

A LINDINHA TAMBÉM TEM UM BLOGUE
Batukada!
SARA: QUERES CASAR COMIGO?
Este blogue é muito, muito giro. E interessante. Apesar de...
APRENDE QUE ELA NÃO VIVE SEMPRE
Há dias, escrevi: “Dershowitz conclui que o assassinato selectivo e orquestrado de judeus...”. Hoje, o Bomba Inteligente, na posta Expressões e palavras a abandonar, escreve: “O substantivo assassinato: porque será que temos de ir buscar ao inglês o nosso assassínio?” Toma lá que é para aprenderes, Mac. Obrigado, Charlie.

PS: já rectifiquei.
MY MAN VALENTIM IS IN DA HOUSE, YO!
No Público:

"Valentim Loureiro, antigo presidente do Boavista, foi detido para interrogatório no âmbito da operação "Apito Dourado" da PJ, juntamente com mais 15 pessoas, no âmbito de uma investigação sobre a existência de tráfico de influências na arbitragem e falseamento de resultados desportivos.

O advogado e antigo presidente do Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) disse que acompanhou Valentim Loureiro na qualidade de seu advogado e amigo pessoal, acrescentando que o autarca e dirigente desportivo compareceu na PJ "de livre vontade". "Ele está calmo, tendo em conta as circunstâncias", afirmou Lourenço Pinto, adiantando não ter ficado surpreendido com a operação da PJ: "Na circunstância actual portuguesa, não me surpreende nada", sublinhou.

Segundo o advogado, ainda não é certo se Valentim Loureiro ficará ou não detido. "Não sei se ele vai ficar detido ou não. Sempre que há um processo as pessoas aguardam. Tudo depende do desenrolar normal da justiça. Quando todos os elementos estiverem reunidos, Valentim loureiro será ouvido pelo juiz", disse ainda."

PS: é impressão minha, ou estas operações têm que ter sempre uma designação pirosa?

DESONESTIDADES, SEGUNDA PARTE
O Cruzes Canhoto desafia-me: “[desafio o MacGuffin] a descobrir algum caso em que uma destas instituições não fizesse a distinção entre os dois tipos de assassínios.”

Resposta do MacGuffin: o Cruzes, como leitor de boa literatura, saberá perfeitamente que mais importante do que aquilo que se diz é aquilo que não se diz.

Depois, tem razão o Cruzes quando acusa Dershowitz (que ele apelida carinhosamente de “Derswhovito”) de falta de imaginação. O mesmo mal, aliás, de que eu padeço.

Uma coisa é certa: o Cruzes deixa no ar uma dúvida e uma certeza.

A dúvida, diz respeito à frase “Israel está a ocupar ilegalmente há décadas território palestiniano (a "ínfima" parte de 30%).” Seria bom que se explicasse melhor. Por exemplo, que território é esse que Israel ocupa ilegalmente (qual a sua extensão e localização), e a que se referem os 30%. Pode até ser que as suas contas batam certas com as minhas.

A certeza: no seguimento do “mais importante do que aquilo que se diz é aquilo que não se diz”, sabemos agora que, de futuro, sempre que o Cruzes Canhoto apontar, com o rigor e o poder de documentação que se lhe reconhesse, os excessos, a injustiça e a violência israelitas dirigida aos palestinianos, fará também o favor de enunciar, também no mesmo texto, os excessos, a injustiça e a violência dos palestinianos para com os israelitas.

PS: e o Cruzes volta a ter razão numa coisa: aquele exemplo/comparação com os guardas de Auschwitz, avançado por Dershowitz, não foi muito feliz. Mas nada que se compare com a infelicidade da frase “Sem reparar que os guardas deste "Auschwitz" são de nacionalidade israelita e religião judaica”. Andamos muito saramaguianos, meus amigos...
MAIS UM QUE NÃO LEU O LIVRO
Escreve o João, no seu Terras do Nunca: “Anda aí um argumento no debate iraquiano que me encanita especialmente. A má-fé.
A coisa nasceu no já famoso livro Impasses e resume-se, rodeios à parte, à ideia de que quem critica Bush fá-lo por má-fé. Fica implícito que os outros, os que apoiam Bush e a guerra, estão no debate de boa-fé.
Para este tipo de argumentação só tenho uma resposta: bardamerda.”


Ó João: tens razão quanto ao "bardamerda" para esse tipo de argumentação, mas, rodeios à parte, esse teu post é uma bela merdinha (não te preocupes, acontece o mesmo com algumas das minhas postas). Toda a gente sabe que a má-fé não escolhe idade, género ou campo ideológico. E, de uma vez por todas, o livro não defende que todos os que estiveram contra a intervenção estiveram de má-fé, nem sequer insinua que todos os que estiveram ao lado da intervenção o fizeram de boa-fé.
SHAME ON YOU, MR. MOORE!
Há vaga no Júlio de Matos?


DOIS PEQUENOS COMENTÁRIOS
1. Era para ser em Junho, aquando da transferência do poder para os iraquianos. Depois, só se a ONU não tomasse conta da ocorrência. Agora, é para já. Diz Zapatero que cumpre «promessa eleitoral», aventada há cerca de um ano – como se as promessas eleitorais fossem vitalícias e independentes dos acontecimentos e da evolução do mundo. Pelo meio afirmou que queria retirar a Espanha da fotografia dos Açores, um mimo indirecto a Portugal que não suscitou um décimo da celeuma suscitada pelas «gravíssimas» declarações de Durão Barroso sobre a decisão de Zapatero. Em política, não basta ser. Com este ziguezaguiar, Zapatero revela-se um político fraco e mesquinho. Continua convencido de que ganhou as eleições porque prometeu retirar as tropas, há um ano atrás. E acha que, com esta decisão, já pode dormir descansado. Nem sequer se apercebe que a sua decisão vem, por coincidência, no seguimento do ultimato feito pela al-Qaeda aos países europeus - um ultimato a todos os níveis insultuoso. Em suma, Zapatero esqueceu o que disse, em relação a 30 de Junho, e esqueceu o que disse sobre um futuro papel das Nações Unidas. No meio dos discursos sobre o «direito internacional», Zapatero está-se nas tintas para a resolução 1483 da sua querida ONU. Por último, Zapatero deixa no ar a ideia de desertor (se, daqui a um mês, a ONU voltar ao Iraque, Zapatero mandará regressar as suas tropas?) e de quem está disposto a ceder, em troca de uma paz cuja duração e natureza ninguém conhece. Em poucos dias de mandato, é esta a obra de Zapatero. Temos, por isso, homem.

2. Via Miniscente, deparo com esta preciosidade:

(extracto da entrevista a Omar Bakri Mohammed, “teórico da al-Qaeda”, publicada ontem no Público)
”- Como sabemos que um atentado é realmente da AI-Qaeda?
- É fácil. Em primeiro lugar são sempre operações em grande escala. O texto divino é claro quanto à necessidade de provocar "o máximo dano possível". O operacional tem portanto de certificar-se de que mata o maior número de pessoas que pode matar. Se não o fizer, espera-o o fogo do Inferno. Em segundo lugar, a Al-Qaeda deixa sempre uma impressão digital: uma pista, como um carro com um Corão ou uma cassete, para ser encontrado pela Polícia. Terceiro, os ataques são feitos em dois ou três lugares ao mesmo tempo. Finalmente, a linguagem. Nos comunicados, basta ler uma frase para se reconhecer o seu rigor teórico: não há nenhum sinal de nacionalismo, não se dizem árabes, nem palestinianos, apenas muçulmanos. Falam sempre do martírio, da morte.
- O que pretende a Al-Qaeda?
- O terror. Estão empenhados numa jihad defensiva, contra os que atacaram o Islão. E a longo prazo querem restabelecer o estado islâmico, o califado. E converter o mundo inteiro.”


Acrescenta o Luis: ”Este mártir retórico vive pacificamente em Londres e goza das liberdades concedidas pela democracia. E lá vai dizendo estas barbaridades.”

Numa altura em que Bin Laden, do alto da sua arrogância e do seu fanatismo criminoso, faz saber que se os meninos europeus se portarem bem não levarão tau-taus, seria bom que, a ocidente, deixássemos de lado a tibieza e os paninhos quentes à la Soares. Por uma vez, seria bom que o mundo livre (ou o que resta dele) se aliasse a uma só voz e ripostasse sem misericórdia e contemplações. Os inimigos dos nossos amigos não são nossos inimigos? Somos aliados, ou nem por isso? Parece que «nem por isso». O eixo franco-alemão já ditou a ordem de trabalhos: para se afirmar, a Europa tem de se revelar como «alternativa» aos EUA e evitar, a todo o custo, o «seguidismo». Tem, se necessário, de bater o pé. No limite, ser contra. Com esta estratégia – a qual, para além de ingénua e suicida é, igualmente, reveladora de uma enorme ingratidão - tem-se aberto a porta ao pior cinismo, à mais gritante tibieza e a um populismo de quem já percebeu que esta ideia de ser «alternativa» aos EUA, com direito a «guerrinha de nervos», anima as franjas políticas mais radicais que, com o passar dos anos, se vieram a revelar utilíssimas na conquista de votos ou na feitura de coligações ad hoc.

É perante este cenário que Bin Laden tem o desplante de nos insultar a todos (pelos menos aos que têm memória), dizendo que, como está bem disposto e a vidinha lhe corre bem, poderá vir a poupar os países europeus, embora nunca os EUA e Israel, assim eles se portem bem – leia-se: deixem de pisar solo «muçulmano». O que faz a Europa? O que dizem os membros da aliança atlântica? A maioria cala-se, uns desertam e outros assobiam para o lado. Certo é que todos, à excepção de uns «tontos» e «mentirosos», tentam distanciar-se assepticamente do grande Satã e do texano idiota. Bin Laden aplaude e vê ali um filão inestimável para a sua nova estratégia: dividir para reinar.

É como diz o João: “a «proposta» de Osama é um insulto, sem dúvida. Mas é também o retrato. O nosso retrato. O retrato da insofismável miséria onde fomos afocinhando sem retorno.”
OPINIÃO PÚBLICA
Escreve o Paulo, n’ O Acidental:

“Acabo de ouvir uma bancária de 65 anos no Opinião Pública da SIC a solidarizar-se com o gesto de Zapatero ao mandar retirar as tropas espanholas do Iraque. A senhora, julgo que se chamava Cecília, acrescentava: "posso prever que a Europa se vai superiorizar aos Estados Unidos". Fiquei mais descansado quando, poucos segundos depois, a dona Cecília informava que já tinha visto uma nave espacial e que nós não estamos cá sozinhos.
Mais descansado fiquei com o resultado final da "sondagem" do Opinião Pública: 56 por cento consideram que a deserção de Zapatero foi uma cedência aos terroristas, enquanto 44 por cento dizem que não foi. OK, afinal nem todos andam a ver extraterrestres.”


John Lukacs, de quem ando a ler um delicioso e absolutamente obrigatório “Five Days in London, May 1940” (Yale University Press, 2001), alerta precisamente para a diferença entre “opinião pública” e “sentimento popular”. Escreve Lukacs: “aquilo que é publico não é necessariamente popular, e opinião não é necessariamente a mesma coisa que sentimento. Há muitos exemplos na história, e não menos na história das democracias, em que a opinião pública e o sentimento popular não só são diferentes como frequentemente divergem. No Sec. XIX, a opinião pública era a opinião das classes média e alta, apesar de gradualmente a classe operária se ter tornado uma leitora de jornais e ter passado a votar.” Querem melhor exemplo do que o caso Howard Dean na corrida à candidatura democrata para as eleições norte-americanas?

Outra diferença, escreve Lukacs, é entre conhecimento e compreensão. De acordo com a lógica, a compreensão é não só o resultado do conhecimento, como o seu corolário. Mas, como dizia Pascal, “nós compreendemos mais do que sabemos”. Existem muitos casos em que a compreensão precede o conhecimento. Mais: é a compreensão que conduz ao conhecimento. Lukacs dá como exemplo o período de Maio de 1940, na Grã-Bretanha. Muitos britânicos entendiam e compreendiam coisas sobre as quais não tinham conhecimento (Rumsfeld, anyone?). Ou compreendiam coisas sobre as quais nem sequer queriam pensar, apesar de terem capacidade para o fazer.

Seja como for, e ao contrário do que por aí se apregoa, isto da «opinião pública» não é assim tão certo, e mal vai o político que navegue ao sabor da dita.

Segunda-feira, Abril 19, 2004

INSISTIR NO ERRO
No Cruzes Canhoto insiste-se no erro. De interpretação, entenda-se. Como hoje estou particularmente magnânimo, faço um derradeiro esforço para explicar o meu ponto de vista, repetindo novamente o que escrevi:

“O Cruzes Canhoto é livre de insinuar, ou afirmar, que os judeus (ou certos judeus) são racistas para com os palestinianos. Mas negar, ficar incomodado ou achar hilariante que um judeu relate o contrário, dando como exemplo aquilo que foi um gritante e brutal acto de racismo por parte de um grupo de radicais palestinianos contra um judeu, ou, ainda, que o anti-semitismo é, ele próprio, uma forma de racismo, já me parece um caso de ignorância ou de má-fé.”

Eu nem sequer vou entrar em discussão sobre a veracidade das notícias que constam no ‘post’ do Cruzes. A questão é outra (e desculpem o narcisismo da repetição): “negar, ficar incomodado ou achar hilariante que um judeu relate o contrário, dando como exemplo aquilo que foi um gritante e brutal acto de racismo por parte de um grupo de radicais palestinianos contra um judeu, ou, ainda, que o anti-semitismo é, ele próprio, uma forma de racismo, já me parece um caso de ignorância ou de má-fé”. O que eu critiquei foi a forma sobranceira como o Cruzes Canhoto considerou "hilariante" (subgénero “absurda”) a insinuação de que os árabes mais radicais e os grupos terroristas palestinianos são racistas em relação aos judeus. Isso, meus caros, é notório e já vem de longe.

Dito de outra forma: Alan Dershowitz é ou não livre, e tem ou não tem razão, em relatar actos de racismo e violência gratuita de palestinianos contra civis inocentes israelitas? Por muito que custe ao Cruzes Canhoto, eu acho que sim e que sim. Pura e simplesmente porque as notícias e os factos não se anulam uns aos outros. O relato de uns não nega automaticamente a existência de outros de sinal contrário. Achar hilariante que Dershowitz o faça é, desculpem a franqueza (ou será fraqueza?), intelectualmente desonesto.

Perceberam agora? Obrigado.
RECOMENDAÇÕES (APONTA AÍ, RICARDO!)

The Dining Rooms “Tre”




Forss “Soulhack”




Boozoo Bajou Remixes


Powered by Blogger Licença Creative Commons
Esta obra está licenciado sob uma Licença Creative Commons.